Arquivo de Agosto, 2008

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Belfast, Northern Ireland

21 21UTC Agosto 21UTC 2008

Foi uma das viagens mais impulsivas e não programadas da história. “Vamos, no próximo domingo, alugar um carro e viajar?”, “Vamos! Oba! Yupi! Uhuuul!”.

No sábado a noite, então, lá estava eu na casa da Jéssica. Sem carro alugado e nem roteiro programado, apenas com algumas vagas pretensões na cabeça. Entramos no site de aluguéis de carros e agendamos o automóvel mais conveniente para nossas ambições abstratas. Obviamente que, devido ao horário, as opções eram limitadas, assim como as nossas capacidades observatórias.

No dia seguinte, ao retirar o carro, percebemos um pequeno detalhes que não fora por nós considerado no momento do agendamento. O câmbio automático. (trovões)

Tá, coisas automáticas em gerais são muito cretinas e só vieram ao mundo pra facilitar a vida da gente. Mas eu NÃO SABIA como, sequer, mover o carro – a não ser empurrando. Mas essa não era uma opção, porque eu sigo a filosofia da marca Tigre e fujo do mico sempre!

A única opção que me veio a cabeça foi procurar o manual de instruções do veículo (santo manual) e aprender na marra, lendo e testando. Deu certo! Claro, que se o caso fosse o contrário, e eu estivesse partindo de um carro automático para um manual, a situação não seria resolvida tão facilmente. Reafirmo minhas palavras ao dizer que a automatização é uma santa dádiva da tecnologia.

Ainda com aquele frio na barriga, arranquei o carro e parti para mais uma aventura na mão contrária. No entanto, a mão contrária não era mais um problema nessa altura do campeonato. Já o pé… esse sim causou complicações.

Pra dirigir em circunstâncias normais a gente usa o pé direito nos pedais do freio e do acelerador e o esquerdo no pedal da embreagem. Pois num carro automático o pé esquerdo fica inutilizado. Daí que veio a pergunta chave do problema: “ONDE RAIOS EU ENFIO ESSE PÉ, MEU DEUS?”.

Como dirigir é mais reflexivo do que pensante, continuei utilizando os dois pés. Um no freio e o outro no acelerador. Agora imaginem vocês o estrago que um pé esquerdo não faz no pedal do freio, ainda mais em um freio sensível que nem o do carro que havíamos pego. Até o momento em que me dei conta do erro cometido, as gurias já tavam apavoradas, com a cara grudada no pára-brisa. Eu, pra variar, só ria. Acho que quando fico nervoso, me desato a rir.

Como da última vez, com o incidente do pneu, o furacão foi passageiro. O resto da viagem foi tranqüilo.

Teoricamente, dentro da nossa confusão mental e literal falta de destino, havíamos escolhido Connemara. Não me perguntem o que de bom tem pra ver lá porque eu só tava seguindo o fluxo. De qualquer forma, mudamos os planos logo no inicio da viagem (como de costume) e nos dirigimos para a capital da Irlanda do Norte, Belfast.

O motivo dessa mudança foi o dinheiro, ou a falta dele. A lição moral dessa viagem foi: “não façam as coisa de última hora, crianças. Sai caro!”. Ir para Belfast significava diminuir o tempo de estrada pela metade, e consequentemente, diminuir consideravelmente o consumo de gasolina.

Chegamos por volta de uma da tarde na cidade. Rodamos bastante até encontrar um estacionamento não pago, e não limitado a 60 minutos.

Pernas em movimento, e cabeças expostas a fina chuva que caia, saímos a descobrir o que Belfast teria a nos oferecer. Fomos ao City Hall (prefeitura), ao Belfast Wheel (muito parecido ao London Eye), ao Albert Clock (oi? Big Ben miniatura?), e a outros diversos monumentos must see da cidade.

O lugar é bem diferente de Dublin, apesar da grande relação entre os países. Visto os monumentos e a estrutura da cidade é clara a influência Britânica em Belfast. A título de curiosidade, até a moeda local é diferente. Lá se usa a Libra, assim como na Inglaterra. Mas, até onde fiquei sabendo, essa moeda só vale por lá. Tanto, que a Libra Irlandesa é diferente da Inglesa.

Tive até que guardar uma nota. Mesmo que 10 pounds me custem quase 20 euros, que me custam, em reais… bom, nem vale a pena pensar nisso.

Seguindo o percurso, caminhamos alguns quilometros (LITERALMENTE) até encontrar o dique onde foi construído o tal do Titanic. Assim como a Jéssica não sabia, assim como a Dani não sabia, e assim como todo o resto do mundo não sabe, eu também não sabia que esse navio era Irlandês.

Aliás, piada pronta, né! Irlandês bebendo pints e pints de Guinness e construindo navio? Não é a toa que deu no que deu…

Nada de grandes coisas pra se ver por lá. Apenas um mega ultra tunder giga buraco onde, segundo as placas, caberiam 26 ônibus londrinos enfileirados.

Eu e a Raquel caminhamos ao redor do dique, e aí sim, pudemos realmente perceber o quão grande era o navio. Nossos olhos nos enganam algumas vezes, mas o tempo considerável que levamos para chegar até a ponta onde há contato com o mar, não poderia nos enganar.

É impressionante o que o homem é capaz, não? Primeiro um dique dessa magnitude para depois construír um navio. Imagina o meu deslumbre no dia em que eu visitar as pirâmides!

Então, ali na ponta da estrutura de concreto, filosofando sobre o assunto, me deparo com uma placa que destruiu com meus pensamentos: “cuidado, estrutura instável”. Oi? Como assim estrutura instável? Interessante que a leitura da placa é feita quando se está DO LADO da estrutura instável.

Valeu pela dica, tô voltando, bye, bye!

Como eu havia dito, coisa de Irlandês bêbado.

Para finalizar a viagem fomos num shopping maravilhoso, arquitetonicamente diferente. Pena que já era tarde e a maioria das lojas estavam fechadas. Pelo menos o Mc Donald’s ainda estava aberto e, para minha felicidade, aceitava Euro! :)

Finalmente, fomos ao parlamento, e ao Belfast Castle. Esse último, um dos prédios mais bonitos que vi nos últimos tempos. Não sei se foi pelo clima noturno somado a vista iluminada da cidade abaixo ou se pela estrutura em si, da escada em caracol, dos jardins bem cuidados e da complexidade arquitetônica. Mais parecia um castelo de conto de fadas.

Na volta, pra variar, o GPS bêbado tinha que se manifestar contrário a nossa vontade de voltar pra casa, e nos fez dar zilhões de voltas ao entorno de Belfast. Salvem as placas, porque embora a tecnologia nos dê muitas dádivas, ela também nos dá muitos estresses. E nada como um bom e velho sistema mecânico-manual pra nos salvar dos perrengues quando a tecnologia cisma em não funcionar.

Das estradas mal sinalizadas (sem olho de gato, como pode?) para Dublin, e em Dublin para a cama – montada provisóriamente no chão, na casa da Jejé, depois de um cansativo dia de viagem.

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Paris, França

4 04UTC Agosto 04UTC 2008

Vinte e oito de julho de 2008, o dia em que conheci Paris, o dia em que meu karma resolveu se voltar contra mim, e o dia em que tudo, como sempre, terminou bem.

Ao viajar de avião, adoro dormir com a cabeça encostada na poltrona da frente. Ainda mais em vôos de baixo custo, em que as poltronas não reclinam. Dobro minha jaqueta, ponho entre a testa e o encosto da cadeira e relaxo!

Nessa posição, um tanto quanto incomum, apaguei e só acordei no final da viagem com o avião pulando. Recompus minha sanidade, levantei a cabeça, mas ainda assim enxergava tudo borrado. Esfregava os olhos e nada. Estranho, pensei. Levei as mão ao rosto ainda meio sonolento e percebi que a cara tava limpa. Surtei. “CADÊ MEUS ÓCULOS?” Caíram do rosto enquanto eu dormia.

Abaixei e catei em tudo quanto é canto. Todo mundo me olhando! NADA! Perguntei pra passageiro, comissário, aeromoça, piloto, Jesus Cristo e todos os profetas da humanidade. NADA! Esperei até o último passageiro sair, procurei, mandei as aeromoças catarem. NADA! Ai-meu-DEUS!

Depois de muito se deixar incomodar, a equipe [ironia mode on] super gentil e simpática [ironia mode off] mandou eu me retirar da aeronave porque eles precisavam arrumá-la para o próximo vôo.

Frustrado e cego, me dirigi ao saguão do aeroporto para perguntar nos auto-falantes se algum dos outros passageiros não havia encontrado meus óculos. Mal saí do avião, um dos comissário de bordo gritou, da porta da distante aeronave, que havia encontrado algo.

Eu disse algo, porque os pedaços de metais tortos e pisoteados já não mais configuravam um óculos. Tá, exagerei – é a dramaticidade da história -, mas o pobre tava bem capenga. Pelo menos dava pra desentortar, e foi o que tentei fazer.

Eu disse tentei, porque nessa tentativa, caguei de vez com a situação. A haste caiu. A lente caiu. E o mini tini parafuso também caiu!

Sem nenhuma opção palpável, eu e o Guto nos dirigimos ao ônibus que nos levaria ao centro de Paris. Uma hora e meia para refletir como poderia resolver meu problema, uma vez que havia esquecido meus óculos escuros e meus óculos reserva (erro que jamais cometerei novamente) em Dublin.

Ao chegarmos, incomodei até as almas penadas parisienses para procurar uma ótica. Meu dia não havia começado bem, mesmo em Paris. Parei pra pedir informações num bar da estação de metrô e recebi de brinde um arroto na cara, de um velho que estava ao meu lado. Não sei se encarei o fato como um sinal de que as coisas iam feder mais, ou se encarei como uma situação inesperada para reanimar meu dia. Sim, porque eu ri, claro.

Pedi ajuda pra Deus e o mundo e nada. Tudo fechado! Em Paris, a segunda-feira é o novo domingo, assim como a (qual a cor da estação?) é o novo preto!

Mesmo suando devido a intensa caminhada, ao peso nas costas, a ansiedade e ao calor de trinta graus, não desisti e continuei procurando.  “Olha lá, uma ótica. E tá aberta!” disse o Guto, depois de mais ou menos meia hora de caminhada!

Foram as palavras mais confortantes que ouvi durante toda a viagem. “ótica…, aberta…,”. Sabe quando as coisas ficam em câmera lenta? Então… Não aconteceu isso, mas eu gosto de pensar que sim, pra dar mais dramaticidade à história.

Entrei, suando, falando um francês de merda e implorando por ajuda. Pelo menos, me fiz entender. O cara, super simpático, arrumou, limpou e turbinou meus óculos sem cobrar um Euro!

Óculos consertado, problema resolvido? Infelizmente não. Uma sujeira entrou no meu olho e me incomodou a tarde inteira. Continuei pseudo-caolho. :(

Mas isso não impediu o passeio. De forma alguma! E o colírio Torre Eiffel logo curou qualquer problema de visão existente.

De olhos bem estalados, admirei o monumento como uma criança namora um doce na vitrina de uma loja. A Torre é linda e imponente. Na minha percepção, pareceu menor do que nas fotos. E mais larga. Mas ao subir até o topo, pude perceber como o negócio é realmente alto. E a vista… que coisa linda. Paris é toda branca. E o Sena cortando a cidade… maravilhoso!

Mas logo o tempo mudou. O forte calor e o sol a pino foram rapidamente substituídos por uma chuva forte e por um vento que levantou mais poeira que a Ivete Sangalo.

Nesse momento, quem ficou pseudo-caolho foi o Guto, que tomou uma areiada no olho.

Antes de voltarmos ao albergue, já a noite, demos uma rápida passada no Arco do Triunfo. Os guris, que sacudiam uma bandeira do Rio Grande do Sul (bairristas?) em frente ao monumento, levaram uma mijada do guarda por desrespeitarem um lugar de homenagem aos mortos. Engraçado, pra dizer o mínimo.

Éramos 6. Eu, o Guto, o Marcelo, o Klaus, o Bruno e o Caetano. Todos já velhos conhecidos de Pelotas. Os guris estavam mochilando pela Europa. Eu e o Guto, morando em Dublin, viajamos até a França para encontrá-los. E para conhecer Paris, claro.

Os guris que viajavam juntos, ficaram em um mesmo quarto no albergue, o Guto em outro e eu em um terceiro.

Era tarde quando fomos dormir. Eu tava podre. Tomei banho e me deitei. No entanto, dormir não foi uma tarefa fácil! Havia, em meu quarto, três camas, sendo que apenas uma estava ocupada. Mas essa única presença foi suficiente para roncar por um batalhão! Que coisa mais estrondosa! Acordei o cara duas vezes pra então conseguir dormir, lá por umas 3 horas da manhã.

No dia seguinte acordamos cedo para ir à Euro Disney. Primeiro, fomos no Hollywood Tower, um elevador que fica despencando com a gente dentro. Sensação horrível de queda livre. Não me convidem pra uma terceira vez (sim, porque eu já tinha experimentado uma primeira).

Depois, fomos em todas as montanhas russas possíveis. As mais legais foram as montanhas completamente no escuro. É ótimo esperar o inesperado, ainda mais ao se tratar de curvas, quedas e loopings.

E assim foi o dia… Montanha atrás de montanha.

Logo a noite, antes de voltarmos ao albergue, fomos ao Moulin Rouge. Tiramos algumas fotos em frente a casa e partimos 1) porque estávamos com fome, 2) porque estávamos podres e 3) porque entrar no cabaré custa muito caro.

De volta ao albergue, e em um novo quarto, dormi feito um bebê! Sem roncos dessa vez! Acordei cedo novamente, me arrumei e me encontrei com o resto do guris para irmos à Roland Garros.

Não que eu fizesse muita questão. Sei porra nenhuma sobre Tênis. Mas companhia é companhia. E eu não morreria para conhecer o lugar. Bem pelo contrário, achei muito válido.

E o que mais me chamou atenção – logicamente – foi a sala de imprensa pros jornalistas que acompanham o torneio e toda a estrutura que ele abriga. Grande, mesmo.

Aliás, a França é o Itu da Europa. Tudo enorme. São as milhões de linhas de metrô, a Torre Eiffel, o Louvre.

A propósito, uma coisa que achei bizarra, foi o fato de que alguns dos metrôs têm pneus de borracha, tipo os de carro, ao invés das rodas convencionais de… trêm. Imagina se fura? Como troca?

Enfim…

Nossa próxima parada foi o Museu do Louvre e suas Piramides. Descemos da estação de metrô (ou subimos?), caminhamos em pouquinho e voilá! Ao longe avistamos aquele prédio monumental. Que estrutura gigantesca, sério! Não sei se fiquei impressionado porque pensava que o Louvre seria mais humilde, ou porque o negócio é realmente grande.

Pagamos oito Euros (muito bem pagos) para entrar, e partimos em busca de conhecimento. Tá, mentira, essa era pra ser a parte educativa da história.

Escolhemos algumas sessões, porque é impossível conhecer tudo. Fomos na parte das antiguidades egípcias, nas esculturas gregas (ou romanas, sei lá), nas pinturas italianas (Monalisa, parada obrigatória) e nas mobílias de Napoleão.

Tudo gigante, tudo lindo. Salas inteiras douradas. Tetos super altos. Afrescos enormes. Tô dizendo… ITU!

Saimos do Museu depois de umas 3 horas sem ver nem um terço das exposições. De lá caminhamos por toda a Champs-Élysées – a segunda avenida mais cara do mundo -, pra finalizar nossa rápida passagem por Paris. Almoçamos e pegamos o ônibus de volta para o aeroporto. Mais uma hora e meia de estrada.

Terminei minha viagem com um gostinho de quero mais. Até porque faltou muita coisa legal pra conhecer. Por isso, uma das minhas primeiras paradas durante a mochilada será novamente Paris.

Entramos no avião bastante tarde, uma vez que a imigração ficou incomodando todos os passageiros. Sentei num dos últimos lugares que sobravam. Mas dessa vez não dormi na posição bizarra porque esqueci minha jaqueta na ótica, naquele primeiro dia de viagem. Posso até ter passado frio (NOT), mas pelo menos cego não fiquei dessa vez!

E agora, de volta a rotina.