Arquivo de Setembro, 2008

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Myth & Me

26 26UTC Setembro 26UTC 2008

A relação entre o ser humano e seu animal de estimação é algo muito forte. Há quem não compreenda, há quem repreenda. Mas essa ligação existe, e só quem realmente ama/amou incondicionalmente seu companheiro(a) sabe do que estou falando.

Uma vez, quando criança, um dos meus vizinhos me indagou sobre minha preferência entre meu computador e minha gata – se eu pudesse manter apenas um, qual escolheria. Mesmo em uma época em que jogos eletrônicos eram a diversão do momento, minha resposta ligeira foi uma: logicamente, a gata.

Aquela situação ficou bastante marcada na minha cabeça até hoje. Não só a situação, como a reação indignada dos vizinhos a minha resposta. Mesmo sendo aquela uma pergunta de uma criança para outra, foi algo que me fez pensar durante anos a fio.

Hoje, daqueles vizinhos presentes, praticamente todos têm animais de estimação, e acredito eu, portanto, que hoje eles entendam o significado da minha resposta.

Um animal de estimação, mais especificamente no caso de um gato, não é apenas um “bicho” imprestável que come, solta pêlo e faz cocô. É um companheiro, é um amigo fiel.

Há quem pense que os gatos são traiçoeiros e egoístas. De certa forma eles são bem independentes, sim. Mas nem por isso deixam de demonstrar o quanto nos amam e o quanto curtem a nossa presença.

De qualquer forma, a questão do que quero dizer não é essa. Cada animal tem uma personalidade diferente e age de maneira diferente, independente de ser um gato, um cachorro ou um passarinho. A questão é que o animal deixa de ser um apenas um “bicho” e passa a ser um membro da família.

Ontem terminei de ler o livro Marley & Eu, sobre um dono e sua convivência com – na opinião do autor – o pior cão do mundo. Na minha percepção, nada do que fora escrito sobre Marley era algo excepcional. Muitos dos cachorros de amigos e parentes se comportam de maneira muito pior.

O que realmente chamou minha atenção é que, independente da similaridade com outros cães, aquele foi único para aquela família. E nos 13 anos de convivência, mesmo com toda o estresse que causava, Marley foi especial.

Da mesma forma com que uma gata, a minha gata, é especial. O pêlo dela pode atacar minha rinite alérgica. Ela pode roubar todas as minhas borrachas e bagunçar o lixo. Ela pode miar e me impedir de estudar na véspera daquela prova difícil. Ela pode ser igual a qualquer outro gato que existe na face da terra. Não importa. Pra mim, pra minha mãe, ela é mais que um gato. Seu comportamento e o amor que ela demonstra por nós supera a barreira da comunicação entre duas diferentes espécies animais – humanos e felinos.

Ontem ela completou 10 anos de existência. Dez anos me fazendo rir. Dez anos me irritando. Dez anos fazendo um cocô muito fedorento. Dez anos fazendo parte da família.

E como o tempo vôa! Parece que foi ontem que minha tia a trouxe em uma caixa de papelão, pequena, tímida. Parece que foi ontem que ela ficou perdida por dois meses no meio do mato. E parece que foi ontem que chorei por causa disso. Parece que foi ontem que ela teve sua primeira e unica cria.

Assim como Marley fez falta pra essa família, ela vai fazer falta na minha em alguns anos. Difícil pensar nisso. Mas a inevitável certeza da vida, a inevitável perda, é sempre compensada nos inúmeros ganhos ao longo dessa existência. Dos ganhos e aprendizados que vieram e dos que ainda estão por vir.

dormindo no inverno…

mexendo em alguma coisa…

Simples assim: amo!

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Moving Dance

21 21UTC Setembro 21UTC 2008

Quem me acompanha provavelmente se lembra dos problemas pelos quais passei com a família monstro e da minha saída às pressas pra casa da Jéssica. Também deve saber que me tornei o novo morador daquele flat, enquanto as gurias que lá habitavam mudaram-se para outro lugar.

Acontece, no entanto, que o endereço referente as minhas correspondências há dois meses não é mais o mesmo daquele inferno. Por muita sorte nossa, mudamo-nos – eu, Dartanhan e André – para um apartamento mais ao centro e muito maior. E isso tudo praticamente pelo mesmo valor.

mudança… de novo

Mas as coisas não são tão simples como parecem ser. A mudança não foi uma simples questão de procurar um lugar mais habitável, foi uma questão de sanidade mental.

Primeiramente porque, contrariando nossas expectativas, um pequeno flat de dois quartos não fora suficientemente espaçoso para abrigar cinco homens. Em segundo lugar, porque os vizinhos eram completamente loucos.

A tortura começava pelo barulho. Sucessivas mudanças e trocas de móveis de lugar no flat acima do nosso, justamente quando mais precisávamos dormir.

Depois, vinham as brigas homéricas do casal. A criança de apenas alguns meses, filha da dupla, nunca deixou seu choro atravessar as paredes da casa. Já os gritos e bate-boca da fera e da fera (sim, porque a bela só em conto de fadas) possuíam níveis que superavam essas barreiras.

No entanto, a pior parte não era quando eles brigavam, mas quando eles… digamos, se amavam. E como se amavam alto! Uma coisa totalmente desnecessária de se ouvir. Ainda bem que eu trabalho na madrugada, o que poupava meus ouvidos na maioria das vezes.

Sobre a obesa da vizinha da frente nós não tivemos muito do que reclamar porque ela não era tão inoportuna como os demais. O principal problema dela era apenas sua feiúra. Só de olhar pra cara da coitada já dava um desânimo, o que praticamente estragava a alegria do dia.

O próximo vizinho, era o pior. Pra começar que ele miava o dia inteiro. Não, isso não é uma metáfora. Ele miava, literalmente. E como se não bastasse ser louco, o cara ainda era ladrão. Todo santo dia, lá vinha ele e seus comparsas carregando várias bicicletas, que no outro dia já haviam sido – creio eu – vendidas.

Aliás, ele é o principal suspeito do assalto que ocorrera em nosso apartamento logo que nos mudamos para o local. Na verdade, sempre tivemos uma pequena desconfiança, a quase certeza veio umas duas semanas antes de sairmos de lá.

Eu estava viajando (fatídico!) e o resto dos guris que moravam comigo estavam prestes a dormir. Nesse momento algum ser inoportuno bate na porta por repetidas vezes. Nenhum deles realmente se coça pra atender, certamente porque sabiam que era um dos loucos. E dar papo pra louco, em inglês, em plena madrugada, não é algo que chame atenção das pessoas de uma forma geral.

Foi quando esta pessoa muito inteligente se dirigiu até a janela de um dos nossos quartos e tentou abri-la (morávamos no térreo), pra surpresa dos guris. Quando o jumento do vizinho percebeu que havia gente no apartamento, saiu correndo e se trancou no apartamento dele.

Ao invés de miar, o cara deveria zurrar, de tão burro que é. Naquele mesmo dia mais cedo, ele havia jogado uma lata de tinta pela janela da sua casa, que ainda encontrava-se fresca pela noite. Certamente que os passos dele ficaram marcados, por causa disso, desde a cena do crime até a porta da casa dele.

Os guris logicamente chamaram a polícia irlandesa – mais conhecida como Garda. Mas esses também são incompetentes e não fizeram nada. No fim das contas o cara ficou limitado a não sair de dentro do flat dele, caso contrário ele seria preso. E semanas depois, segundo nos informou o Landlord (dono da casa), ele seria despejado.

Mesmo assim, unimos o inútil ao desagradável e partimos dessa pra uma melhor. Até porque, mesmo com o vizinho louco sobre controle, ainda tínhamos o problema do barulho com as duas feras. E esse arranca rabo deu história pra contar.