Foi uma das viagens mais impulsivas e não programadas da história. “Vamos, no próximo domingo, alugar um carro e viajar?”, “Vamos! Oba! Yupi! Uhuuul!”.
No sábado a noite, então, lá estava eu na casa da Jéssica. Sem carro alugado e nem roteiro programado, apenas com algumas vagas pretensões na cabeça. Entramos no site de aluguéis de carros e agendamos o automóvel mais conveniente para nossas ambições abstratas. Obviamente que, devido ao horário, as opções eram limitadas, assim como as nossas capacidades observatórias.
No dia seguinte, ao retirar o carro, percebemos um pequeno detalhes que não fora por nós considerado no momento do agendamento. O câmbio automático. (trovões)
Tá, coisas automáticas em gerais são muito cretinas e só vieram ao mundo pra facilitar a vida da gente. Mas eu NÃO SABIA como, sequer, mover o carro – a não ser empurrando. Mas essa não era uma opção, porque eu sigo a filosofia da marca Tigre e fujo do mico sempre!
A única opção que me veio a cabeça foi procurar o manual de instruções do veículo (santo manual) e aprender na marra, lendo e testando. Deu certo! Claro, que se o caso fosse o contrário, e eu estivesse partindo de um carro automático para um manual, a situação não seria resolvida tão facilmente. Reafirmo minhas palavras ao dizer que a automatização é uma santa dádiva da tecnologia.
Ainda com aquele frio na barriga, arranquei o carro e parti para mais uma aventura na mão contrária. No entanto, a mão contrária não era mais um problema nessa altura do campeonato. Já o pé… esse sim causou complicações.
Pra dirigir em circunstâncias normais a gente usa o pé direito nos pedais do freio e do acelerador e o esquerdo no pedal da embreagem. Pois num carro automático o pé esquerdo fica inutilizado. Daí que veio a pergunta chave do problema: “ONDE RAIOS EU ENFIO ESSE PÉ, MEU DEUS?”.
Como dirigir é mais reflexivo do que pensante, continuei utilizando os dois pés. Um no freio e o outro no acelerador. Agora imaginem vocês o estrago que um pé esquerdo não faz no pedal do freio, ainda mais em um freio sensível que nem o do carro que havíamos pego. Até o momento em que me dei conta do erro cometido, as gurias já tavam apavoradas, com a cara grudada no pára-brisa. Eu, pra variar, só ria. Acho que quando fico nervoso, me desato a rir.
Como da última vez, com o incidente do pneu, o furacão foi passageiro. O resto da viagem foi tranqüilo.
Teoricamente, dentro da nossa confusão mental e literal falta de destino, havíamos escolhido Connemara. Não me perguntem o que de bom tem pra ver lá porque eu só tava seguindo o fluxo. De qualquer forma, mudamos os planos logo no inicio da viagem (como de costume) e nos dirigimos para a capital da Irlanda do Norte, Belfast.
O motivo dessa mudança foi o dinheiro, ou a falta dele. A lição moral dessa viagem foi: “não façam as coisa de última hora, crianças. Sai caro!”. Ir para Belfast significava diminuir o tempo de estrada pela metade, e consequentemente, diminuir consideravelmente o consumo de gasolina.
Chegamos por volta de uma da tarde na cidade. Rodamos bastante até encontrar um estacionamento não pago, e não limitado a 60 minutos.
Pernas em movimento, e cabeças expostas a fina chuva que caia, saímos a descobrir o que Belfast teria a nos oferecer. Fomos ao City Hall (prefeitura), ao Belfast Wheel (muito parecido ao London Eye), ao Albert Clock (oi? Big Ben miniatura?), e a outros diversos monumentos must see da cidade.
O lugar é bem diferente de Dublin, apesar da grande relação entre os países. Visto os monumentos e a estrutura da cidade é clara a influência Britânica em Belfast. A título de curiosidade, até a moeda local é diferente. Lá se usa a Libra, assim como na Inglaterra. Mas, até onde fiquei sabendo, essa moeda só vale por lá. Tanto, que a Libra Irlandesa é diferente da Inglesa.
Tive até que guardar uma nota. Mesmo que 10 pounds me custem quase 20 euros, que me custam, em reais… bom, nem vale a pena pensar nisso.
Seguindo o percurso, caminhamos alguns quilometros (LITERALMENTE) até encontrar o dique onde foi construído o tal do Titanic. Assim como a Jéssica não sabia, assim como a Dani não sabia, e assim como todo o resto do mundo não sabe, eu também não sabia que esse navio era Irlandês.
Aliás, piada pronta, né! Irlandês bebendo pints e pints de Guinness e construindo navio? Não é a toa que deu no que deu…
Nada de grandes coisas pra se ver por lá. Apenas um mega ultra tunder giga buraco onde, segundo as placas, caberiam 26 ônibus londrinos enfileirados.
Eu e a Raquel caminhamos ao redor do dique, e aí sim, pudemos realmente perceber o quão grande era o navio. Nossos olhos nos enganam algumas vezes, mas o tempo considerável que levamos para chegar até a ponta onde há contato com o mar, não poderia nos enganar.
É impressionante o que o homem é capaz, não? Primeiro um dique dessa magnitude para depois construír um navio. Imagina o meu deslumbre no dia em que eu visitar as pirâmides!
Então, ali na ponta da estrutura de concreto, filosofando sobre o assunto, me deparo com uma placa que destruiu com meus pensamentos: “cuidado, estrutura instável”. Oi? Como assim estrutura instável? Interessante que a leitura da placa é feita quando se está DO LADO da estrutura instável.
Valeu pela dica, tô voltando, bye, bye!
Como eu havia dito, coisa de Irlandês bêbado.
Para finalizar a viagem fomos num shopping maravilhoso, arquitetonicamente diferente. Pena que já era tarde e a maioria das lojas estavam fechadas. Pelo menos o Mc Donald’s ainda estava aberto e, para minha felicidade, aceitava Euro!
Finalmente, fomos ao parlamento, e ao Belfast Castle. Esse último, um dos prédios mais bonitos que vi nos últimos tempos. Não sei se foi pelo clima noturno somado a vista iluminada da cidade abaixo ou se pela estrutura em si, da escada em caracol, dos jardins bem cuidados e da complexidade arquitetônica. Mais parecia um castelo de conto de fadas.
Na volta, pra variar, o GPS bêbado tinha que se manifestar contrário a nossa vontade de voltar pra casa, e nos fez dar zilhões de voltas ao entorno de Belfast. Salvem as placas, porque embora a tecnologia nos dê muitas dádivas, ela também nos dá muitos estresses. E nada como um bom e velho sistema mecânico-manual pra nos salvar dos perrengues quando a tecnologia cisma em não funcionar.
Das estradas mal sinalizadas (sem olho de gato, como pode?) para Dublin, e em Dublin para a cama – montada provisóriamente no chão, na casa da Jejé, depois de um cansativo dia de viagem.












