Não há vagas

Vamos agradecer ao poder público? Agradecer a segurança pela qual pagamos e nos é de direito, mas que não recebemos direito em momento algum. Poderia aqui citar inúmeras das faltas dos governos e me coçam os dedos para fazer uma enorme lista de todos os problemas. Mas irei descrever um caso específico que, por menor a dimensão, estraga grande parte do bom humor de muitos dos cidadãos de bem.

Não possuímos mais a liberdade de ir e vir com nossos carros pelas ruas das cidades, porque as vagas tornaram-se bens privados. As vias não são mais públicas e os verdadeiros donos desses espaços de circulação têm nome e profissão: flanelinhas. Deixar um veículo ao ar livre e não liberar uma propina pelo direito de estacionar é, com certeza, sinônimo de incomodação. Pode soar uma reclamação elitista, mas acredito que direitos todos têm, inclusive de ir e vir.

Para atender a diferentes compromissos em pontos distantes da cidade, ir à Faculdade, ao trabalho etc; é necessário se carregar um cofrinho. Não em formato de porco, mas de burro, porque é isso que somos ao pagar altos impostos por nada. Fica proibido se esquecer das moedinhas, ou o suposto segurança mostra seu lado vilão e a lataria do carro é que sofre a retaliação. O salário suado transformado em investimento se desvaloriza na extremidade de um objeto pontiagudo e as economias para um próximo sonho de consumo evaporam para minimizar os eventuais danos causados pelo marginal.

Digo marginal e encho a boca para afirmar. Aquele cidadão não tem culpa de o sistema não oferecer oportunidades a todos. A gente também não. Mesmo assim, somos nós que pagamos indiretamente por seu sustento e de sua família. E caro. Se não pagamos com dinheiro, pagamos com a depredação do nosso patrimônio. Triste relembrar que o poder público incentiva a situação, porque já perdeu o controle e não sabe mais o que fazer. E todos, motoristas e flanelinhas, é que sofrem as consequências. Nós em nossos bolsos e eles em estagnação social.

Sabe por que não vejo a atividade “guardador de carro” como profissão? Porque é uma função desnecessária, um serviço de proteção imposto para nos proteger dos próprios profissionais que realizam a função. Irônico, não? Lógico que, como em todas as áreas, existe gente honesta que vê na atividade a única opção de sustento. Mas a maioria que observo não passa de um bando de gente sem o que fazer, extorquindo dinheiro para encher a cara no boteco da esquina. Forte? A realidade é assim mesmo, infelizmente.

E sim, estou revoltado.

Arranhão de ponta a ponta, dos dois lados. Obrigado, Brasil.

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De santo não têm nada…

Eleição era um período muito divertido na minha infância. Como qualquer criança, amaldiçoava a democracia por causa do horário eleitoral, que tirava vários dos meus programas favoritos do ar e me entediava em pleno horário nobre. Por outro lado, a escolha dos representantes trazia uma coisa de bom: a possibilidade de colecionar os santinhos com a propaganda dos candidatos aptos ao pleito.

Não sei qual a graça a gente via em juntar um bolo de papel com a cara de um monte de gente velha, feia e sem graça. Mas era ritual. Sempre que havia eleições saíamos acompanhados de uma caixa de sapatos velha e garimpávamos todo e qualquer panfleto que víssemos pela rua – não podia ser repetido e precisava estar em boas condições.

E a brincadeira virava competição. Acho que até ajudamos a manter a cidade mais limpa naqueles breves períodos – os garis podem agradecer pela ajuda. Eu e meus vizinhos passávamos tardes circulando pelas ruas ao entorno de onde morávamos a cata do mais legal, do mais diferente, dos coloridos, dos maiores… não havia discriminação.

No final das contas o número nem era tão importante assim. Óbvio que quem recolhesse mais podia se gabar com a vitória. Mas isso não representava muita coisa, porque a premiação era apenas o sentimento de superioridade. Passadas as eleições não fazia a mínima diferença para nós quem havia sido escolhido vereador ou prefeito, deputado ou presidente. Sequer havia bônus para quem possuísse um santinho com algum dos eleitos.

O que nos chamava atenção era o nome da propaganda: santinho. Já naquela época tínhamos noção da má fama da política brasileira e sabíamos que santinho não seria um nome adequado. Talvez capetinhas? Até hoje, aliás, ainda não entendo o porquê desta definição. Se há uma verdade para os cidadãos do país, nos mais extremos pontos do mapa, é a descrença e desconfiança nos representantes e futuros representantes da política nacional.

Passados mais de dez anos, não é mais tão comum ver esse material publicitário espalhado por aí. Menos diversão para crianças criativas como eu era e menos papel inútil poluindo as ruas da cidade. E a julgar que as eleições não elegem mais políticos, mas sim, palhaços, talvez a cata de panfletos pudesse ser mais divertida atualmente. Tiririca, Vampeta, Mulher Melão, Sergio Malandro e Ronaldo Ésper não me deixam mentir. Pena que isso é uma boa notícia apenas para o Francisco lá da infância, porque para o do futuro é um problema sério que o do presente ainda precisa enfrentar.

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Segundo melhor amigo

Não vou questionar a posição do cachorro como melhor amigo do homem. A vaga já foi preenchida e efetivada há muito tempo pelos caninos e ninguém mais tem força para fazer a substituição. Ainda assim defendo a classe felina, muito discriminada e judiada, como braço esquerdo da população humana. Algumas pessoas têm medo, outras consideram o gato interesseiro, mas geralmente sem verdadeiro conhecimento de causa para defender a questão.

O fato pode ser reflexo de uma cultura que classifica o bicho como vilão. As crianças crescem absorvendo nos desenhos animados que o gato é preguiçoso e malandro, quando não supermalvado, perseguindo o pobre rato. Para se ter uma ideia de como a TV influencia no comportamento, pense no primeiro alimento que você associa com gatos. Sim, uma tigela de leite. Pois fique sabendo que, em animais adultos, isso pode causar diarreia. O mais adequado seria um potinho com água e uma boa porção de ração.

Conheço casos de felinos muito fieis. Animais que esperavam à porta pelo dono e deixavam de comer quando este se ausentava. De modo geral concordo que eles têm um comportamento mais independente com relação aos outros animas, mas não aceito essa imagem negativa atribuída aos felinos. Por dez anos fui proprietário e, por que não, amigo de uma gata e aprendi muito sobre comportamento animal ao longo desse período. Eu não era seu dono favorito, admito, mas através desse convívio rompi com a imagem errada atribuída aos gatos na sociedade hoje.

Se as pessoas abrissem mais suas perspectivas sobre assuntos os quais não conhecem, talvez a realidade do abandono a animais na cidade pudesse ser diferente. E aqui também me estendo aos cachorros. Várias pessoas que antes criticavam proprietários de animais, depois de terem se aberto à experiência, conheceram uma nova realidade. Hoje são cidadãos completamente diferentes, porque entendem que esse tipo de relacionamento supera qualquer personalidade animal. E enxergam que um problema como abandono não é uma mera questão de saúde pública, mas de conscientização e de respeito aos bichanos.

Texto também disponível no Espaço da Redação do site do Jornal Diário Popular.

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Lei de Murphy

“Se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará.” Uma das leis fundamentais do universo, por mais negativista que seja, é verdade irritantemente absoluta quando precisamos que algo funcione. Contrariando todas as expectativas e apelos ao mais poderoso dos santos, a Lei de Murphy é implacável. E diretamente proporcional a sua pressa.

Você não encontra as chaves caso perceba que está atrasado (e nem São Longuinho ajuda). O ônibus demora a chegar, o trânsito para e as dez pragas do apocalipse descem dos céus e assolam a terra. Não há escapatória. Ao procurar pelas chaves você encontrará aquilo que precisava desesperadamente semana passada. Se pegou um atalho, será o caminho mais longo – ou demorado – para o seu destino. E caso você ainda consiga chegar a tempo, não há dúvidas de que seu compromisso estava marcado para o dia anterior.

Assim como a Lei da Gravidade, a Lei de Murphy é praticamente uma proposição científica. Mas, diferentemente da primeira, ainda não é muito bem explicada. Livros como “O Segredo” incentivam a positividade da mente para driblar o inevitável. Seria o mesmo, em minha opinião, que subverter a gravidade e tentar voar com a força do pensamento.

A origem do nome vem do Capitão Edward Murphy, um engenheiro da Força Aérea Americana, que na década de 40 realizava testes de tolerância à gravidade em seres humanos. Durante a realização de um desses testes todos os aparelhos falharam. Foi então que Murphy genialmente culpou seu assistente, alegando que, se houvesse um meio de o cara cometer um único erro ele o faria.

Ironicamente, a Lei tornou-se conhecida com esse nome porque, no final dos testes, tudo deu certo. A afirmação do capitão de que “aquilo que pode dar errado dará errado” fez com que os cientistas trabalhassem ao máximo para contornar essa possibilidade. O final feliz imortalizou o conceito, mas, desde então, os desfechos não terminaram da mesma forma.

O caso mais comentado no Brasil durante o mês de fevereiro foi uma das sacanagens mais cretinas que o senhor das improbabilidades poderia ter feito com alguém. Justamente um dos bilhetes não computados pela funcionária da lotérica de Novo Hamburgo foi o grande vencedor de um prêmio de R$ 53,3 milhões. Veja bem, 53 MILHÕES de reais. %#$@&*!

A probabilidade de um apostador ganhar na Mega Sena é de uma em 50 milhões. Tudo indica que as chances de alguém ganhar com um bilhete inválido são ainda menores. Exatamente por esse motivo que acontece. A Lei determina a análise de todas as possibilidades porque logo a única opção possível de dar errado é a que vai se desenvolver.

É mais que óbvia a personalidade sádica de Murphy. Nem Freud explica. Mas o importante é não entrar em paranóia. Eu sempre acreditei que o cara me perseguia. Hoje vejo que ninguém neste mundo está a salvo. E a julgar que vivemos em um planeta com quase 7 bilhões de habitantes, então fico mais tranquilo. Afinal, quais as probabilidades?

Texto também disponível no site Noite & Cia.

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Gasparzinho, te desprezo.

Tarok Makto

Eu não tenho medo do lobo mau. Pelo menos, não enquanto ele estiver vivo. Qualquer tipo de espírito é um grande problema para minha imaginação. O mais sanguinário dos serial-killers não têm o mínimo impacto se comparado a singela ideia de um fantasma assombrando a dimensão humana. Considerando que palavra fantasma seria simplista para definir o tipo de entidade a qual me refiro.

Assistir a um filme de terror não é um problema. Assistir a um filme de terror espírita é o pior dos pesadelos. A ansiedade e os sustos durante a exibição são os mesmo que o de um público padrão. Meu comportamento infantil e irracional nos momentos subsequentes não.

Espelhos completamente ignorados. Luzes acesas em todos os cômodos que estejam dentro do campo de visão. Companhia humana, se disponível. Televisão sintonizada nos canais mais coloridos e alegres possíveis. E uma distração qualquer. Um pacote imbecil para um espectador cagão.

Ser cético e descrente não adianta. É muita pretensão acreditar que seríamos os únicos a ocupar esse plano. E um grande desapontamento o conceito de que viraremos pó após o inevitável dia. Minha rinite não toleraria a ideia. Então dispenso uma alergia pela eternidade.

A filmografia do capeta eu praticamente desconheço. Porque, confesso, fico bastante impressionado. Algumas vezes até corro riscos, mas a experiência sempre acaba em arrependimento. Numa das últimas vezes em que tive a infeliz ideia de tomar sustos por opção própria para finalidades recreativas, estendi mentalmente a aventura por um mês. Emily Rose me acompanhou por um bom tempo, principalmente às 3h da manhã.

Eis que hoje me deparo com um daqueles momentos em que não havia opção. “Atividade Paranormal” é um dos filmes da temporada mais comentados na Internet e todo mundo está morrendo de curiosidade para assistir – inclusive meus amigos. Mérito de uma bem sucedida estratégia de marketing (obrigado, publicitários).

Juntamo-nos em um grupo de treze pessoas para assistir a tão bem falada trama. Número não muito adequado para os supersticiosos e impressionados (incluo-me neste último). Mas a companhia compensava e a oportunidade latente seria a única para que eu pudesse ter uma percepção própria da história. Se a escolha dependesse de mim, teríamos obviamente assistido a algo inteiramente concreto e humano. Se possível com locações durante o dia.

Felizmente a história, como todos que assistem vêm afirmando, é pobre em sustos. Não deixa de ser interessante, mas não assusta nem ao mais cagão dos espectadores (eu). Há alguns momentos – ou melhor, UM momento – bastante intenso, mas, no conjunto, a obra deixa a desejar. O que foi um alívio, relativamente falando.

Diante de um filme patético, o término da exibição foi marcado por risadas coletivas. Mas para não fazer feio no clube dos impressionados, mesmo em um contexto desprovido de taquicardia e gritos histéricos, resgatei minha típica sensação do espectador cagão de “estamos sendo observados”. A história não poderia ser a única coisa patética da noite.

Solitariamente recolhido em casa continuo a repassar algumas cenas em meu maldito cinema mental. Apenas uma das medidas do pacote citado no inicio deste texto faz falta ao se tratar da cabeça imaginativa de um cético que acredita em atividades paranormais. Dormir seria a opção mais adequada para acabar com esse comportamento ridículo. Mas o relato é mais intenso enquanto na companhia dos inúmeros vultos e sons inexistentes que minha mente cria neste momento.

Se servir de consolo, pelo menos ninguém puxou meu pé… ainda.

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Bocejo dos Vampiros

A vida após a morte não deve ser fácil. Puro marasmo. Matar almas inocentes e sugar seus sangues é um passatempo tão século passado que já deve ter se tornado algo superentediante. E mesmo que o cara goste de ser um típico vampiro, bebericando de um pescocinho uma vez ou outra, sempre tem um CHATO puritano para acabar com a diversão.

Sookie & Bill

Veja o caso da série True Blood. Ser mal se tornou algo tão condenável que até já inventaram o tal do sangue artificial. Depois que os vampiros saíram do armário a política é enturmar. Tanto que os bares e restaurantes comercializam o suposto sangue como qualquer outro prato, oferecendo opções para os diversos tipos de paladares vampirescos – do A positivo ao O negativo.

Os coitados (ou afortunados?) não possuem alma. Não podem comer uma pizza sequer, deve dar desarranjo ou algo do tipo. E não podem sair a luz do dia. Porra, então deixem os caras ao menos confraternizarem bebendo um sanguezinho em paz – contanto que não seja o meu – e serem felizes para sempre no sentido mais literal da palavra.

Possuir poderes sobre-humanos, mas ter de ponderar seu uso deve cansar a imortalidade. O auge da felicidade para um ser póstumo contemporâneo provavelmente seja uma trepadinha aqui, outra acolá. No caso dos vampiros de True Blood fazer sexo é o melhor passatempo (aliás, o nome da protagonista – SOOKIE – é beeeem sugestivo). Nesses momentos tenho a impressão que eles ganham uma corzinha mais alegre sobre suas peles branco-papel.

Angel & Buffy

Já o pobre Angel nem isso faz de bom. Esse é um vampiro com alma, daqueles bem certinhos e irritantes. De vampiros bonzinhos o mundo está cheio. E Angel é tão caxias que opta por não se envolver sexualmente com Buffy, por quem ele tem uma queda, porque daí a casa cai mesmo. Perde a alma que lhe fora dada e sai cometendo matanças por aí.

Por essas e outras o submundo está perdendo a graça. Às vezes tenho a impressão que alguns deles ainda têm esperanças de ir para o céu. Uma vaidade desnecessária. Se grande parte da comunidade não consegue se enxergar no espelho é por alguma razão. Vampiros não deveriam se preocupar com nada a não ser matar para se alimentar. Há coisa mais poética?

Bella & Edward

Vampiros, vampiros… sejam maus. Ou não sejam nada. E não me venham com essa história de brilhar no sol. Em Crepúsculo os sugadores de sangue não pegam fogo e morrem como os demais, mas BRILHAM. Dizem que bicha não morre, vira purpurina. Será então que todos os vampiros da saga são gays?

Não se fazem mais vilões como antigamente. Conde Drácula faz muita falta nos dias de hoje. E a Vampira Cláudia, interpretada por Kirsten Dunst no filme Entrevista com Vampiro, tem mais pulso na pós-vida do que essas novas criaturas repaginadas para o século XXI. Afinal, vampiros são ratos ou morcegos? Até o Batman está perdendo moral por causa deles.

aham, Claudia, senta lá.

Dá para perceber de cara: os caras estão cansados e entediados. E as pessoas estão ficando de saco cheio junto a eles dessa humanização em massa. Crise existencial no ramo não tem cabimento. Vampiro não ama gente, ama sangue. Daqui a pouco a profissão do futuro será analista de vampiro. Fica a dica para quem precisa de orientação profissional. Mas já aviso, quem vai ficar deprimido com tanta asneira vai ser você.

Texto também disponível no site Noite & Cia.

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Jornalismo e jornalista em pauta

Queda da obrigatoriedade do diploma de jornalista. Quem lutou por essa não exigência do diploma se baseia na constituição, alegando que limitar o exercício profissional da comunicação, em específico o exercício do jornalismo, apenas à profissionais formados é ir contra a constituição brasileira, porque essa limitação vai contra a liberdade de expressão dos demais cidadãos não diplomados. Além disso, afirma-se que o jornalismo não é uma profissão que exija conhecimento técnico.

Na minha concepção, esse tipo de afirmação é hipocrisia pura. E isso baseado no fato de que hoje as limitações para que as pessoas possam se expressar são cada vez menores. Qualquer um tem espaço, se tiver interesse, para publicar seus pensamentos, suas ideias e suas opiniões. Os equipamentos tornaram-se acessíveis e a Internet tornou-se um canal dos produtores caseiros, para citar um exemplo.

Em uma era em que a tendência é essa, desvalorizar essa profissionalização, a meu ver, é um retrocesso. Ainda mais considerando que essa exigência existe há tanto tempo. E independente de ter sido criada na época da ditadura militar, a obrigatoriedade hoje, já não se aplica a esse sistema político. O jornalismo evoluiu, e a sociedade evoluiu junto com ele.

Os argumentos a favor do diploma, no entanto, também não me convencem. Afirmar que, por causa da não exigência, o jornalismo terá necessariamente uma queda em sua qualidade não me parece correto. Até porque as empresas as quais valorizam a profissionalização – seja na área que for – continuarão contratando e exigindo profissionais diplomados. Pedido que também é feito pelas próprias pessoas que se posicionam contra a obrigatoriedade do diploma (novamente a hipocrisia). Fazer tal afirmação, então, é menosprezar o jornalismo que já esta sendo feito hoje em dia.

Como bem se sabe as Universidades não preparam devidamente os focas (futuros jornalistas) para enfrentar o mercado de trabalho. Primeiro porque a profissão de jornalista é bastante segmentada, e os custos em termos de equipamento para prover o contato dos alunos com essa segmentação é alto. Segundo, porque realmente o ensino em comunicação, de maneira geral, é fraco.

Claro que isso depende muito do próprio estudante. Eu vejo a Universidade como muito mais do que um mero local de aprendizado técnico ou teórico. O meio acadêmico é um espaço de convivência, discussão e reflexão, independente da faculdade cursada. Ela é importante, principalmente no caso do jornalismo, por essa imersão profunda na profissão. É isso que, na minha cabeça, faz da Universidade um lugar tão importante. E também por isso que depende muito do futuro profissional a qualidade da sua própria formação.

Mas mesmo importante, o sistema de ensino superior hoje não forma adequadamente esses profissionais. Se a utopia atual do ensino fosse alcançada, ainda assim haveria lacunas a serem preenchidas. Por o jornalismo ser uma área de abordagem tão geral em termos de conhecimento, faço campanha pela ampliação da grade curricular do curso. Defendo a importância dos conhecimentos teóricos e técnicos específicos do jornalismo, sim, mas defendo também a importância de conhecimentos históricos, geográficos, literários, sociológicos, filosóficos e legais nos meios acadêmicos. Para citar alguns.

Obviamente não há tempo para que tudo isso seja abordado de maneira profunda dentro de uma faculdade. Mas a união desses conhecimentos, básicos para todo jornalista, é de extrema importância para um bom exercício da profissão. Isso é exigido de nós, mas de maneira empírica. Por que não, então, solidificar uma formação de maneira realmente concreta?

Em países onde não há obrigatoriedade de diploma para exercício da profissão – embora grande parte das empresas nesses países exija essa formação –, como é o caso dos Estados Unidos, a faculdade é bem mais focada em termos de produção do que em termos teóricos. Não que eu ache isso certo isoladamente. Mas não se pode negar a eficiência da prática constante. O ponto que quero chegar é esse: a teoria nos meios acadêmicos não deveria ser específica da comunicação, mas um mix mais aprofundado de todas as áreas. Jornalista precisa conhecer e, acima de tudo, saber pensar! Já a técnica deveria ser incentivada mais em termos de prática do que apenas uma mera visão da própria prática.

Um especialista em generalidades deve ser preparado para lidar com as generalidades. E o argumento de que a queda da exigência abre porta para profissionais de outras áreas falarem com mais propriedade na mídia sobre suas próprias áreas é um argumento furado. Porque o jornalista deveria ter competência para trabalhar a informação de maneira conjunta com esse profissional. Ele assina o texto e a estrutura de determinada matéria, mas o profissional da área específica tem participação intensiva nessa produção.

Toda a divagação até agora leva a um nó central: não é a obrigatoriedade ou não do diploma que vai fazer com que o jornalismo torne-se decadente. É o conformismo e a comodidade que fazem isso. Talvez esse baque para os profissionais da área sirva como incentivo para uma verdadeira revolução na profissionalização do jornalista. E se isso realmente acontecer, talvez esse obstáculo nos faça pular mais alto.

O que eu defendo quando me indigno com essa decisão do Supremo Tribunal Federal e quando brigo pelo meu diploma, é a minha valorização como profissional. Porque acredito que sem essa obrigatoriedade, acontecerá uma saturação ainda maior do mercado de trabalho e a regulamentação de direitos e deveres, bem como de pisos salariais, ficará sem controle algum. É um pensamento egoísta? É. Paciência. De resto, em minha opinião, essa mudança não fará uma diferença tão grande assim em termos de qualidade de produção.

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