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Jornalismo e jornalista em pauta

Queda da obrigatoriedade do diploma de jornalista. Quem lutou por essa não exigência do diploma se baseia na constituição, alegando que limitar o exercício profissional da comunicação, em específico o exercício do jornalismo, apenas à profissionais formados é ir contra a constituição brasileira, porque essa limitação vai contra a liberdade de expressão dos demais cidadãos não diplomados. Além disso, afirma-se que o jornalismo não é uma profissão que exija conhecimento técnico.

Na minha concepção, esse tipo de afirmação é hipocrisia pura. E isso baseado no fato de que hoje as limitações para que as pessoas possam se expressar são cada vez menores. Qualquer um tem espaço, se tiver interesse, para publicar seus pensamentos, suas ideias e suas opiniões. Os equipamentos tornaram-se acessíveis e a Internet tornou-se um canal dos produtores caseiros, para citar um exemplo.

Em uma era em que a tendência é essa, desvalorizar essa profissionalização, a meu ver, é um retrocesso. Ainda mais considerando que essa exigência existe há tanto tempo. E independente de ter sido criada na época da ditadura militar, a obrigatoriedade hoje, já não se aplica a esse sistema político. O jornalismo evoluiu, e a sociedade evoluiu junto com ele.

Os argumentos a favor do diploma, no entanto, também não me convencem. Afirmar que, por causa da não exigência, o jornalismo terá necessariamente uma queda em sua qualidade não me parece correto. Até porque as empresas as quais valorizam a profissionalização – seja na área que for – continuarão contratando e exigindo profissionais diplomados. Pedido que também é feito pelas próprias pessoas que se posicionam contra a obrigatoriedade do diploma (novamente a hipocrisia). Fazer tal afirmação, então, é menosprezar o jornalismo que já esta sendo feito hoje em dia.

Como bem se sabe as Universidades não preparam devidamente os focas (futuros jornalistas) para enfrentar o mercado de trabalho. Primeiro porque a profissão de jornalista é bastante segmentada, e os custos em termos de equipamento para prover o contato dos alunos com essa segmentação é alto. Segundo, porque realmente o ensino em comunicação, de maneira geral, é fraco.

Claro que isso depende muito do próprio estudante. Eu vejo a Universidade como muito mais do que um mero local de aprendizado técnico ou teórico. O meio acadêmico é um espaço de convivência, discussão e reflexão, independente da faculdade cursada. Ela é importante, principalmente no caso do jornalismo, por essa imersão profunda na profissão. É isso que, na minha cabeça, faz da Universidade um lugar tão importante. E também por isso que depende muito do futuro profissional a qualidade da sua própria formação.

Mas mesmo importante, o sistema de ensino superior hoje não forma adequadamente esses profissionais. Se a utopia atual do ensino fosse alcançada, ainda assim haveria lacunas a serem preenchidas. Por o jornalismo ser uma área de abordagem tão geral em termos de conhecimento, faço campanha pela ampliação da grade curricular do curso. Defendo a importância dos conhecimentos teóricos e técnicos específicos do jornalismo, sim, mas defendo também a importância de conhecimentos históricos, geográficos, literários, sociológicos, filosóficos e legais nos meios acadêmicos. Para citar alguns.

Obviamente não há tempo para que tudo isso seja abordado de maneira profunda dentro de uma faculdade. Mas a união desses conhecimentos, básicos para todo jornalista, é de extrema importância para um bom exercício da profissão. Isso é exigido de nós, mas de maneira empírica. Por que não, então, solidificar uma formação de maneira realmente concreta?

Em países onde não há obrigatoriedade de diploma para exercício da profissão – embora grande parte das empresas nesses países exija essa formação –, como é o caso dos Estados Unidos, a faculdade é bem mais focada em termos de produção do que em termos teóricos. Não que eu ache isso certo isoladamente. Mas não se pode negar a eficiência da prática constante. O ponto que quero chegar é esse: a teoria nos meios acadêmicos não deveria ser específica da comunicação, mas um mix mais aprofundado de todas as áreas. Jornalista precisa conhecer e, acima de tudo, saber pensar! Já a técnica deveria ser incentivada mais em termos de prática do que apenas uma mera visão da própria prática.

Um especialista em generalidades deve ser preparado para lidar com as generalidades. E o argumento de que a queda da exigência abre porta para profissionais de outras áreas falarem com mais propriedade na mídia sobre suas próprias áreas é um argumento furado. Porque o jornalista deveria ter competência para trabalhar a informação de maneira conjunta com esse profissional. Ele assina o texto e a estrutura de determinada matéria, mas o profissional da área específica tem participação intensiva nessa produção.

Toda a divagação até agora leva a um nó central: não é a obrigatoriedade ou não do diploma que vai fazer com que o jornalismo torne-se decadente. É o conformismo e a comodidade que fazem isso. Talvez esse baque para os profissionais da área sirva como incentivo para uma verdadeira revolução na profissionalização do jornalista. E se isso realmente acontecer, talvez esse obstáculo nos faça pular mais alto.

O que eu defendo quando me indigno com essa decisão do Supremo Tribunal Federal e quando brigo pelo meu diploma, é a minha valorização como profissional. Porque acredito que sem essa obrigatoriedade, acontecerá uma saturação ainda maior do mercado de trabalho e a regulamentação de direitos e deveres, bem como de pisos salariais, ficará sem controle algum. É um pensamento egoísta? É. Paciência. De resto, em minha opinião, essa mudança não fará uma diferença tão grande assim em termos de qualidade de produção.

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