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De santo não têm nada…

Eleição era um período muito divertido na minha infância. Como qualquer criança, amaldiçoava a democracia por causa do horário eleitoral, que tirava vários dos meus programas favoritos do ar e me entediava em pleno horário nobre. Por outro lado, a escolha dos representantes trazia uma coisa de bom: a possibilidade de colecionar os santinhos com a propaganda dos candidatos aptos ao pleito.

Não sei qual a graça a gente via em juntar um bolo de papel com a cara de um monte de gente velha, feia e sem graça. Mas era ritual. Sempre que havia eleições saíamos acompanhados de uma caixa de sapatos velha e garimpávamos todo e qualquer panfleto que víssemos pela rua – não podia ser repetido e precisava estar em boas condições.

E a brincadeira virava competição. Acho que até ajudamos a manter a cidade mais limpa naqueles breves períodos – os garis podem agradecer pela ajuda. Eu e meus vizinhos passávamos tardes circulando pelas ruas ao entorno de onde morávamos a cata do mais legal, do mais diferente, dos coloridos, dos maiores… não havia discriminação.

No final das contas o número nem era tão importante assim. Óbvio que quem recolhesse mais podia se gabar com a vitória. Mas isso não representava muita coisa, porque a premiação era apenas o sentimento de superioridade. Passadas as eleições não fazia a mínima diferença para nós quem havia sido escolhido vereador ou prefeito, deputado ou presidente. Sequer havia bônus para quem possuísse um santinho com algum dos eleitos.

O que nos chamava atenção era o nome da propaganda: santinho. Já naquela época tínhamos noção da má fama da política brasileira e sabíamos que santinho não seria um nome adequado. Talvez capetinhas? Até hoje, aliás, ainda não entendo o porquê desta definição. Se há uma verdade para os cidadãos do país, nos mais extremos pontos do mapa, é a descrença e desconfiança nos representantes e futuros representantes da política nacional.

Passados mais de dez anos, não é mais tão comum ver esse material publicitário espalhado por aí. Menos diversão para crianças criativas como eu era e menos papel inútil poluindo as ruas da cidade. E a julgar que as eleições não elegem mais políticos, mas sim, palhaços, talvez a cata de panfletos pudesse ser mais divertida atualmente. Tiririca, Vampeta, Mulher Melão, Sergio Malandro e Ronaldo Ésper não me deixam mentir. Pena que isso é uma boa notícia apenas para o Francisco lá da infância, porque para o do futuro é um problema sério que o do presente ainda precisa enfrentar.

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Lei de Murphy

“Se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará.” Uma das leis fundamentais do universo, por mais negativista que seja, é verdade irritantemente absoluta quando precisamos que algo funcione. Contrariando todas as expectativas e apelos ao mais poderoso dos santos, a Lei de Murphy é implacável. E diretamente proporcional a sua pressa.

Você não encontra as chaves caso perceba que está atrasado (e nem São Longuinho ajuda). O ônibus demora a chegar, o trânsito para e as dez pragas do apocalipse descem dos céus e assolam a terra. Não há escapatória. Ao procurar pelas chaves você encontrará aquilo que precisava desesperadamente semana passada. Se pegou um atalho, será o caminho mais longo – ou demorado – para o seu destino. E caso você ainda consiga chegar a tempo, não há dúvidas de que seu compromisso estava marcado para o dia anterior.

Assim como a Lei da Gravidade, a Lei de Murphy é praticamente uma proposição científica. Mas, diferentemente da primeira, ainda não é muito bem explicada. Livros como “O Segredo” incentivam a positividade da mente para driblar o inevitável. Seria o mesmo, em minha opinião, que subverter a gravidade e tentar voar com a força do pensamento.

A origem do nome vem do Capitão Edward Murphy, um engenheiro da Força Aérea Americana, que na década de 40 realizava testes de tolerância à gravidade em seres humanos. Durante a realização de um desses testes todos os aparelhos falharam. Foi então que Murphy genialmente culpou seu assistente, alegando que, se houvesse um meio de o cara cometer um único erro ele o faria.

Ironicamente, a Lei tornou-se conhecida com esse nome porque, no final dos testes, tudo deu certo. A afirmação do capitão de que “aquilo que pode dar errado dará errado” fez com que os cientistas trabalhassem ao máximo para contornar essa possibilidade. O final feliz imortalizou o conceito, mas, desde então, os desfechos não terminaram da mesma forma.

O caso mais comentado no Brasil durante o mês de fevereiro foi uma das sacanagens mais cretinas que o senhor das improbabilidades poderia ter feito com alguém. Justamente um dos bilhetes não computados pela funcionária da lotérica de Novo Hamburgo foi o grande vencedor de um prêmio de R$ 53,3 milhões. Veja bem, 53 MILHÕES de reais. %#$@&*!

A probabilidade de um apostador ganhar na Mega Sena é de uma em 50 milhões. Tudo indica que as chances de alguém ganhar com um bilhete inválido são ainda menores. Exatamente por esse motivo que acontece. A Lei determina a análise de todas as possibilidades porque logo a única opção possível de dar errado é a que vai se desenvolver.

É mais que óbvia a personalidade sádica de Murphy. Nem Freud explica. Mas o importante é não entrar em paranóia. Eu sempre acreditei que o cara me perseguia. Hoje vejo que ninguém neste mundo está a salvo. E a julgar que vivemos em um planeta com quase 7 bilhões de habitantes, então fico mais tranquilo. Afinal, quais as probabilidades?

Texto também disponível no site Noite & Cia.

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Bocejo dos Vampiros

A vida após a morte não deve ser fácil. Puro marasmo. Matar almas inocentes e sugar seus sangues é um passatempo tão século passado que já deve ter se tornado algo superentediante. E mesmo que o cara goste de ser um típico vampiro, bebericando de um pescocinho uma vez ou outra, sempre tem um CHATO puritano para acabar com a diversão.

Sookie & Bill

Veja o caso da série True Blood. Ser mal se tornou algo tão condenável que até já inventaram o tal do sangue artificial. Depois que os vampiros saíram do armário a política é enturmar. Tanto que os bares e restaurantes comercializam o suposto sangue como qualquer outro prato, oferecendo opções para os diversos tipos de paladares vampirescos – do A positivo ao O negativo.

Os coitados (ou afortunados?) não possuem alma. Não podem comer uma pizza sequer, deve dar desarranjo ou algo do tipo. E não podem sair a luz do dia. Porra, então deixem os caras ao menos confraternizarem bebendo um sanguezinho em paz – contanto que não seja o meu – e serem felizes para sempre no sentido mais literal da palavra.

Possuir poderes sobre-humanos, mas ter de ponderar seu uso deve cansar a imortalidade. O auge da felicidade para um ser póstumo contemporâneo provavelmente seja uma trepadinha aqui, outra acolá. No caso dos vampiros de True Blood fazer sexo é o melhor passatempo (aliás, o nome da protagonista – SOOKIE – é beeeem sugestivo). Nesses momentos tenho a impressão que eles ganham uma corzinha mais alegre sobre suas peles branco-papel.

Angel & Buffy

Já o pobre Angel nem isso faz de bom. Esse é um vampiro com alma, daqueles bem certinhos e irritantes. De vampiros bonzinhos o mundo está cheio. E Angel é tão caxias que opta por não se envolver sexualmente com Buffy, por quem ele tem uma queda, porque daí a casa cai mesmo. Perde a alma que lhe fora dada e sai cometendo matanças por aí.

Por essas e outras o submundo está perdendo a graça. Às vezes tenho a impressão que alguns deles ainda têm esperanças de ir para o céu. Uma vaidade desnecessária. Se grande parte da comunidade não consegue se enxergar no espelho é por alguma razão. Vampiros não deveriam se preocupar com nada a não ser matar para se alimentar. Há coisa mais poética?

Bella & Edward

Vampiros, vampiros… sejam maus. Ou não sejam nada. E não me venham com essa história de brilhar no sol. Em Crepúsculo os sugadores de sangue não pegam fogo e morrem como os demais, mas BRILHAM. Dizem que bicha não morre, vira purpurina. Será então que todos os vampiros da saga são gays?

Não se fazem mais vilões como antigamente. Conde Drácula faz muita falta nos dias de hoje. E a Vampira Cláudia, interpretada por Kirsten Dunst no filme Entrevista com Vampiro, tem mais pulso na pós-vida do que essas novas criaturas repaginadas para o século XXI. Afinal, vampiros são ratos ou morcegos? Até o Batman está perdendo moral por causa deles.

aham, Claudia, senta lá.

Dá para perceber de cara: os caras estão cansados e entediados. E as pessoas estão ficando de saco cheio junto a eles dessa humanização em massa. Crise existencial no ramo não tem cabimento. Vampiro não ama gente, ama sangue. Daqui a pouco a profissão do futuro será analista de vampiro. Fica a dica para quem precisa de orientação profissional. Mas já aviso, quem vai ficar deprimido com tanta asneira vai ser você.

Texto também disponível no site Noite & Cia.

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